Voltar a estudar enquanto trabalha e a exaustão de conciliar

Fazer uma pós-graduação de noite. Estudar para uma certificação nos fins de semana. Voltar à faculdade depois dos trinta, quarenta anos, com um trabalho de tempo integral já ocupando o dia inteiro. Muita gente que decide investir na própria formação descobre, poucos meses depois, um cansaço que não tinha previsto — e que quase não cabe em palavras quando alguém pergunta como você está.

"Estou bem, só um pouco corrido." É o que se responde. Mas o corpo às vezes conta outra coisa.

Um investimento que também pede algo de você

Retomar os estudos enquanto se trabalha costuma vir de um lugar bonito: o desejo de crescer, de mudar de área, de não ficar para trás, de abrir uma porta que ainda está fechada. É uma aposta no próprio futuro. E, por ser uma escolha, quase sempre carrega a ideia de que não se pode reclamar dela.

Afinal, ninguém te obrigou. Você quis. Então o cansaço aparece acompanhado de uma voz que diz que você não tem direito de estar cansado — porque isso foi decisão sua, porque tanta gente gostaria de poder estudar, porque é só uma fase.

Na Gestalt-terapia, a gente olha para a pessoa dentro do seu campo, não para o esforço isolado. E o campo de quem concilia trabalho e estudo é um campo cheio. O dia não ganhou horas a mais. O que aconteceu foi que uma nova exigência entrou num espaço que já estava ocupado — e algo, em algum lugar, teve que ceder para abrir lugar.

O que costuma ceder primeiro

Quase nunca é o trabalho. Quase nunca é o estudo. Esses dois têm cobrança externa, prazo, alguém esperando. O que cede primeiro costuma ser o que não protesta: o descanso, o encontro com quem se gosta, o exercício, o sono, o tempo vazio que servia para respirar.

É um ajustamento compreensível. Diante de um campo apertado, o organismo corta onde parece haver menos consequência imediata. O problema é que essas coisas cortadas não eram supérfluas — eram justamente o que sustentava a energia para tudo o mais. E quando elas somem por meses seguidos, o cansaço deixa de ser de um dia e passa a ser de fundo.

Ampliar a consciência sobre isso já muda alguma coisa. Não no sentido de encontrar mais horas — elas não existem —, mas de enxergar com clareza o que está sendo sacrificado em silêncio, sem que ninguém, nem você, tenha realmente escolhido sacrificar.

Cansaço não é falta de garra

Há uma narrativa forte de que quem realmente quer dá conta. Que é questão de disciplina, de foco, de querer o suficiente. Essa narrativa é cruel justamente com quem está se esforçando muito, porque transforma um limite humano em falha de caráter.

Sentir-se esgotado no meio de um projeto de estudo não significa que você errou ao começar, nem que não é capaz. Pode significar que o campo está sobrecarregado e que ele merece ser olhado com mais honestidade — talvez o ritmo precise ser outro, talvez algo precise ser negociado, talvez o momento peça uma pausa que não é desistência.

Algumas perguntas ajudam a fazer contato com o que está acontecendo agora, e não com o ideal:

  • O que exatamente desapareceu da minha rotina desde que comecei? Eu escolhi que desaparecesse?
  • Este ritmo é sustentável pelo tempo que ainda falta, ou eu estou contando com um fôlego que já acabou?
  • Estou estudando em direção a algo que ainda faz sentido, ou por medo de parar?

Não existe resposta certa. Existe a chance de decidir com consciência, em vez de apenas resistir até o corpo obrigar a parar.

Se conciliar tudo tem pesado mais do que você imaginava, e você sente que precisa de um espaço para olhar isso com calma, conversar pode ser um bom começo.

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