O cansaço de trabalhar com quem você não escolheu

Você não escolheu essa pessoa. Ela simplesmente estava lá quando você chegou, ou chegou depois, e agora divide com você as horas mais produtivas do seu dia. E há algo nela — no jeito de responder, de interromper, de assumir crédito, de criar tensão onde não precisava — que te desgasta. Não é uma briga aberta. É um atrito constante, de baixa voltagem, que vai consumindo mais energia do que você gostaria de admitir.

Conviver com alguém difícil no trabalho é uma das fontes de sofrimento mais subestimadas que aparecem na escuta. A gente fala muito de carga horária, de metas, de chefe. Fala pouco do peso de passar oito horas por dia perto de uma pessoa com quem o contato nunca flui.

O atrito que não fica no escritório

Uma das marcas desse tipo de desgaste é que ele não termina quando o expediente acaba. Você sai do trabalho e a conversa continua na sua cabeça. Ensaia a resposta que não deu. Revê a reunião. Antecipa o próximo encontro com um aperto no peito.

Na Gestalt-terapia, falamos que uma situação inacabada tende a permanecer como figura — ela insiste em ocupar o primeiro plano da sua atenção porque ainda não se resolveu. O conflito não digerido vira exatamente isso: um assunto que você não escolheu carregar para casa, mas carrega. E enquanto ele ocupa a figura, sobra menos espaço para o resto da sua vida.

O que o incômodo está sinalizando

É tentador transformar a outra pessoa no problema inteiro. Às vezes ela realmente contribui muito para o clima. Mas o incômodo que ela desperta em você também é uma informação sobre você — e vale olhar para isso sem culpa.

O que exatamente essa pessoa toca? Talvez seja a sensação de não ser respeitado. Talvez a dificuldade de se posicionar quando alguém avança. Talvez a irritação de ver no outro algo que você reprime em si. A força da reação costuma dizer mais sobre a nossa história de contato do que sobre o gesto isolado do outro.

Isso não é para você se responsabilizar pelo comportamento alheio. É para recuperar algum poder onde parece não haver nenhum: você não controla a pessoa, mas pode entender melhor o que se passa na fronteira entre vocês dois.

Entre engolir e explodir

Diante de um colega difícil, é comum oscilar entre dois extremos. De um lado, engolir tudo — sorrir, ceder, evitar, e ir acumulando um ressentimento que endurece por dentro. De outro, o rompante, a resposta atravessada que sai quando já não se aguenta mais e que muitas vezes deixa você se sentindo pior depois.

Os dois são tentativas de proteção. E os dois costumam manter o mesmo padrão girando. Entre engolir e explodir existe um espaço mais estreito e mais difícil: o de nomear o que incomoda de forma direta, no momento em que acontece, sem transformar o outro em inimigo nem a si mesmo em vítima.

Nem sempre isso muda a outra pessoa. Ela pode continuar sendo quem é. Mas muda a sua posição no campo — deixar de recolher tudo em silêncio já altera o que circula entre vocês.

Nem toda relação precisa ser resolvida

Vale dizer, também, que algumas convivências não vão virar boas. Existe o colega com quem o contato será sempre limitado, e tudo bem. O objetivo não é forçar harmonia onde ela não cabe, mas encontrar uma forma de estar ali sem se perder de si — protegendo sua energia sem endurecer por completo.

Quando o desgaste com alguém no trabalho começa a ocupar suas noites, a azedar seu humor e a te fazer duvidar do seu valor, pode ser um bom momento para olhar isso com mais cuidado. Se algo aqui ressoou, vale conversar.

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