Precisar da aprovação do chefe para se sentir bem
Tem gente que passa o dia inteiro tranquila até o gestor responder uma mensagem com uma palavra a menos do que o esperado. E de repente o corpo muda. A cabeça começa a remontar a conversa, procurando o que pode ter dado errado. Um "ótimo trabalho" faz o dia inteiro valer a pena. Um silêncio faz o dia inteiro desabar.
Se o seu humor no trabalho sobe e desce conforme o retorno do seu chefe, você não é frágil nem carente. Você aprendeu, em algum momento, a se localizar a partir do olhar do outro. E, num campo de trabalho onde quem avalia tem poder sobre o seu futuro, essa antena fica ainda mais sensível.
Quando o termômetro do próprio valor fica na mão de outra pessoa
Todo mundo gosta de ser reconhecido. O reconhecimento é uma forma de contato — alguém olha para o que você fez e devolve algo. Isso é saudável e humano.
O que pesa é outra coisa: quando a aprovação deixa de ser um gesto que faz bem e vira a única fonte de onde você tira a certeza de que está tudo bem. Aí o termômetro do seu valor fica na mão de outra pessoa. E você passa a viver em função de mantê-lo apontando para cima.
Na linguagem da Gestalt-terapia, é como se a sua figura — aquilo que ganha foco na sua experiência — estivesse quase sempre ocupada pelo estado emocional do outro. O que o gestor está sentindo, o que ele achou, o que aquele tom significava. Sobra pouco espaço de consciência para a sua própria percepção do trabalho que você fez.
O ajustamento que essa dependência protege
Essa forma de se orientar pelo outro costuma ter história. Muita gente cresceu em ambientes onde o afeto vinha atrelado ao desempenho, onde ser aprovado era a forma mais segura de ser aceito. Ler o humor de quem tinha poder virou uma habilidade de sobrevivência.
Como ajustamento criativo, isso um dia foi útil. Prestar atenção no que agrada mantém a relação estável, evita conflito, garante um lugar. O problema é que esse mesmo ajustamento, num campo adulto de trabalho, cobra caro. Você fica sem chão próprio. Depende de um sinal externo que nem sempre vem — porque nem todo gestor elogia, e mesmo os que elogiam não elogiam o tempo todo.
O que se protege aí, muitas vezes, é uma dúvida antiga: eu tenho valor por conta própria, ou só quando alguém confirma que tenho? Enquanto essa pergunta fica sem resposta interna, ela sempre vai ser terceirizada para quem estiver por perto com poder de avaliar.
Recuperar um pouco de chão
Não se trata de deixar de ligar para o que o chefe pensa. O retorno dele tem valor real, inclusive prático. Trata-se de não ser a única voz que pesa.
Um começo possível é reparar no que acontece com você antes do retorno chegar. Depois de terminar uma entrega, antes de qualquer feedback, o que você mesmo percebe sobre ela? Onde você se esforçou, onde ficou orgulhoso, onde sabe que poderia ter sido melhor? Essa avaliação interna quase sempre existe — só costuma ficar abafada pela pressa de saber o que o outro achou.
Outra observação útil: quando o humor despenca depois de um silêncio, tente nomear o que você está preenchendo. "Ele não respondeu" vira, quase automaticamente, "ele não gostou" e depois "eu falhei". Perceber esse salto é awareness. Nem sempre o silêncio do outro é sobre você — às vezes é só um dia corrido dele.
Recuperar chão próprio é um processo lento. Não é decidir de uma vez que a opinião dos outros não importa. É voltar, aos poucos, a ocupar a própria figura com a sua percepção também, e não só com a leitura do humor alheio.
Se você se reconheceu aqui e sente que esse termômetro externo tem custado demais, vale conversar sobre isso num espaço de escuta.
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