Aceitar elogio no trabalho e não conseguir acreditar nele

Alguém no trabalho olha para você e diz: "você mandou muito bem nisso". E antes mesmo de sentir qualquer coisa, sua boca já respondeu: "ah, imagina, foi sorte", "o time todo ajudou", "nem foi nada demais".

O elogio chegou. Mas não entrou.

Esse desencontro é mais comum do que parece. Muita gente que cobra reconhecimento e sofre com a falta dele descobre, num segundo momento, que também não sabe o que fazer quando o reconhecimento finalmente aparece.

Um elogio é um gesto de contato

Na Gestalt-terapia, pensamos no contato como aquilo que acontece na fronteira entre você e o outro. Um elogio é exatamente isso: alguém do outro lado estendeu algo em sua direção. Aceitar é deixar esse gesto atravessar a fronteira e tocar você de fato.

Desconversar é uma forma de interromper esse contato. A palavra chega até a fronteira e é devolvida antes de ser sentida. Você fica de fora do próprio momento — presente de corpo, mas ausente da experiência de estar sendo visto por algo bom.

Não é falsa modéstia. Na maioria das vezes é algo mais silencioso: o elogio não encontra dentro de você um lugar preparado para recebê-lo.

O que a recusa costuma proteger

Recusar reconhecimento raramente é um defeito de caráter. Quase sempre é um ajustamento que se formou em algum campo anterior.

Para algumas pessoas, aceitar elogio significa se expor. Se eu concordo que fui bem, coloco uma expectativa sobre mim — e agora preciso repetir, sustentar, não decepcionar. Recusar é uma forma de não subir esse degrau, de não ficar visível demais.

Para outras, a origem está numa história em que valor sempre veio acompanhado de cobrança. Cresceu-se ouvindo "foi bom, mas dava para melhorar". Nesse campo, o elogio nunca foi um ponto de chegada, só uma pausa breve antes da próxima exigência. Aprender a não confiar nele foi uma proteção legítima.

E há quem carregue uma imagem interna tão dura de si mesmo que o elogio simplesmente não bate com o que se acredita ser. Quando alguém diz "você é ótimo nisso" e por dentro a certeza é de que se é insuficiente, a mente escolhe acreditar em si mesma, não no outro. O elogio vira ruído.

O custo de nunca deixar entrar

Quando o reconhecimento não atravessa, algo curioso acontece: você pode estar rodeado de retornos positivos e ainda assim se sentir no vazio. Não porque ninguém valoriza o que você faz — mas porque nada do que valorizam consegue chegar até você.

É como ter fome e recusar comida na porta. O reconhecimento existe no campo, mas não vira nutrição. E aí a busca por mais um projeto, mais uma prova, mais uma entrega, nunca termina — porque nenhuma delas jamais será suficiente para preencher algo que não se permite receber.

Experimentar deixar entrar

Não se trata de fingir orgulho ou aprender a resposta certa. Trata-se de ampliar a consciência do que acontece em você quando um elogio chega.

Da próxima vez, você pode tentar apenas notar. O que aconteceu no corpo? Houve pressa em desconversar? Um leve incômodo, uma vontade de sair daquele foco? Não precisa mudar nada ainda — só perceber o próprio movimento de recuo.

Depois, talvez, experimentar segurar o silêncio por um instante antes de responder. Um simples "obrigado" sem completar com uma justificativa. Sentir como é ficar, por três segundos, do lado de dentro do elogio em vez de empurrá-lo para longe.

É um contato pequeno, e muitas vezes desconfortável. Mas é nele que mora a possibilidade de o reconhecimento, um dia, deixar de bater na porta e começar a entrar.

Se algo aqui ressoou com o que você vive, pode fazer sentido conversar sobre isso com mais calma.

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