Reuniões demais e a sensação de nunca produzir de verdade

Você fecha o notebook no fim do dia e tem a estranha sensação de não ter feito nada. Não porque ficou parado — pelo contrário. Foi de reunião em reunião, respondeu no chat entre uma e outra, mudou de assunto seis vezes antes do almoço. E ainda assim o trabalho que importava, aquele que exige concentração, continua ali, intocado, esperando por um tempo que não sobra.

É um cansaço difícil de nomear. Não é o cansaço de quem produziu muito. É o cansaço de quem esteve presente o tempo todo, mas nunca por inteiro em lugar nenhum.

A agenda como campo

Na Gestalt-terapia, olhamos para a pessoa dentro do seu campo — o conjunto de forças, relações e demandas em que ela está imersa. Uma agenda lotada de reuniões não é só uma questão de gestão de tempo. É um campo que organiza a sua atenção de fora para dentro.

Quando o dia é picotado em blocos de trinta minutos, cada um sobre um tema diferente, o que fica difícil é justamente o contato. Contato, aqui, é a capacidade de estar de fato com o que está diante de você — a tarefa, a conversa, a ideia — sem já estar deslizando para a próxima.

A fragmentação constante não deixa nada se completar. E algo que nunca se fecha continua ocupando espaço, mesmo depois que a reunião acaba.

Por que é tão cansativo estar sempre "disponível"

Cada transição entre uma reunião e outra pede uma reconfiguração. Você precisa mudar o foco, resgatar o contexto, ajustar o tom para pessoas diferentes. Isso tem um custo que raramente aparece na agenda, porque não ocupa um espaço nomeado no calendário.

É comum, nas conversas sobre trabalho, ouvir pessoas descreverem essa sensação de terminar o dia esgotadas sem conseguir apontar o que, exatamente, consumiu tanto. A resposta muitas vezes está aí: no esforço invisível de estar meio presente em tudo e inteira em nada.

Há também outra camada. Estar sempre em reunião pode dar uma sensação reconfortante de estar sendo útil, de estar participando, de não estar sendo esquecido. A agenda cheia às vezes funciona como prova de que você importa. E aí fica difícil recusar o próximo convite, mesmo quando ele atropela o trabalho que só você pode fazer.

O que pede atenção

Não se trata de demonizar reuniões — muitas são necessárias, algumas são onde as coisas de fato acontecem. A pergunta não é "como eliminar reuniões", mas algo mais honesto: o que a minha agenda está dizendo sobre onde a minha presença está indo?

Algumas perguntas que podem ampliar a consciência sobre isso, sem virar checklist:

  • Ao fim do dia, o que ficou por fazer costuma ser sempre o mesmo tipo de tarefa — a que exige foco, a que é sua de verdade?
  • Você aceita reuniões por acreditar que precisa estar lá, ou por receio do que significaria não estar?
  • Onde, no seu dia, existe algum tempo em que ninguém pode te interromper — e ele existe?

Não são perguntas para responder com pressa. São para deixar reverberar.

Recuperar o contato

Muitas vezes o problema não está no volume de reuniões em si, mas na ausência de fronteiras entre elas. Um intervalo, mesmo curto, entre um compromisso e outro devolve a chance de encerrar uma coisa antes de começar a próxima. Um bloco protegido na agenda para o trabalho que exige concentração não é luxo — é dar ao seu foco um lugar tão legítimo quanto o das reuniões.

Esses ajustes são pequenos. Mas eles mudam a experiência de estar no trabalho, porque devolvem a possibilidade de estar de fato em algum lugar de cada vez.

Se essa sensação de correr o dia inteiro e não chegar a lugar nenhum tem sido constante, e não só um dia cheio de vez em quando, pode valer olhar para isso com mais calma. Se algo aqui ressoou, vale conversar.

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