Quando dar feedback difícil tira o seu sono
Há um tipo de conversa que muitos gestores adiam por semanas. Às vezes por meses. É aquela em que é preciso dizer a alguém da equipe que algo não está indo bem — um comportamento que incomoda, um resultado que não veio, uma postura que precisa mudar.
A pessoa sabe que precisa falar. Ensaia mentalmente no chuveiro, no trânsito, antes de dormir. Mas o dia passa, a reunião termina, e a conversa continua guardada. E o desconforto, em vez de sumir, cresce.
Adiar não é preguiça
É tentador tratar isso como uma questão de coragem, como se bastasse decidir e falar. Mas quem já esteve nesse lugar sabe que não é tão simples.
Segurar um feedback difícil quase nunca é descuido. É um jeito de proteger alguma coisa. Às vezes é o vínculo — o receio de que a pessoa se magoe, se afaste, deixe de gostar de você. Às vezes é a própria imagem — o medo de ser visto como duro, injusto, alguém que aponta o erro dos outros. Às vezes é mais antigo do que o trabalho: uma história em que discordar ou confrontar sempre custou caro.
Na Gestalt-terapia, olhamos para isso como um ajustamento que a pessoa foi construindo. Em algum campo da sua vida, evitar o confronto foi a saída mais inteligente disponível. O que acontece é que esse mesmo movimento, num papel de liderança, começa a cobrar um preço que não estava na conta.
O que o silêncio ocupa
Quando a conversa é adiada, ela não desaparece. Ela vira figura — ocupa espaço na cabeça do gestor mesmo fora do expediente, atravessa outras reuniões, tinge cada interação com aquela pessoa.
E tem um detalhe que costuma passar despercebido: o silêncio também informa. A pessoa do outro lado sente que algo mudou no clima, na frequência do contato, no tom. Só não sabe o quê. Sem a conversa, ela fica lidando com uma versão imaginada — quase sempre pior — do que está acontecendo.
O cuidado que tentava proteger o outro acaba deixando o outro num campo mais confuso e mais solitário do que a conversa direta deixaria.
Feedback como contato, não como veredito
Parte do que trava é a forma como a conversa é imaginada. Muita gente ensaia o feedback como um julgamento a ser entregue: uma sentença sobre o que a pessoa é ou deixa de ser.
Quando o encontro é imaginado assim, é natural que o corpo resista. Ninguém quer entrar numa sala para condenar alguém — nem para ser o vilão da história.
Mas existe outra maneira de enxergar. O feedback pode ser um gesto de contato: dizer o que você observa, o que sente, o que a equipe precisa, e abrir espaço para o que o outro tem a dizer. Não é entregar um veredito fechado. É iniciar uma conversa entre duas pessoas que ainda vão trabalhar juntas amanhã.
É menos sobre acertar as palavras perfeitas e mais sobre estar presente de verdade no que se fala.
Uma pergunta antes da conversa
Antes de marcar aquela conversa que você vem adiando, talvez valha uma pausa para reparar no que está acontecendo dentro de você. O que exatamente você teme que aconteça se falar? De quem é o desconforto que você está tentando poupar — do outro ou seu?
Não para se cobrar mais uma resposta pronta. Mas para que a decisão de falar deixe de ser um salto no escuro e passe a ser uma escolha mais consciente.
Liderar envolve sustentar conversas que ninguém gosta de ter. Mas o desgaste de segurar tudo sozinho, calado, costuma pesar mais do que a conversa em si.
Se algo aqui ressoou com o seu momento, pode ser um bom ponto de partida para uma conversa.
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