Trabalhar em silêncio absoluto o dia inteiro
Tem uma coisa que quase ninguém comenta sobre trabalhar de casa: o silêncio.
Não o silêncio bom, de concentração. Outro. O de perceber, lá pelas cinco da tarde, que você não trocou uma única palavra falada com ninguém o dia inteiro. Respondeu mensagens, entrou em uma reunião com a câmera desligada, mandou uns emojis. Mas conversar mesmo, sentir a presença de outra pessoa ao lado, isso não aconteceu.
E aí bate uma sensação estranha, difícil de nomear. Não é exatamente tristeza. É mais um vazio de contato.
A troca invisível que se perdeu
Quando pensamos no que o trabalho presencial tinha de bom, quase sempre esquecemos das coisas pequenas. O café rápido em pé na copa. A reclamação compartilhada no corredor. O colega que puxa assunto sobre nada. Alguém que percebe, só de olhar, que hoje você não está bem.
Nenhuma dessas coisas estava na descrição do cargo. Mas elas sustentavam algo. Eram pontos de contato, momentos em que você existia para além da tarefa, em que era uma pessoa entre pessoas e não só um nome numa lista de responsáveis.
O trabalho remoto trouxe autonomia, tempo de deslocamento de volta, a possibilidade de organizar o dia do seu jeito. Isso é real e vale. Mas junto veio uma perda que ninguém colocou na conta: a de estar entre outros. E como perdas assim são silenciosas, a gente costuma sentir o efeito sem entender de onde vem.
Solidão não é o mesmo que estar só
Na Gestalt-terapia, olhamos para a pessoa sempre em relação ao seu campo — o ambiente, os vínculos, o momento de vida. Não somos organismos fechados. Nos constituímos no contato, na fronteira onde eu encontro o outro. É ali que algo acontece: eu me percebo, sou percebido, me modifico.
Quando esse contato se torna raro, algo em nós sente falta, mesmo que a cabeça diga que está tudo bem. Você pode adorar trabalhar em casa e, ainda assim, sentir uma solidão que não sabe explicar. As duas coisas cabem ao mesmo tempo. Uma não anula a outra.
Vale distinguir: estar sozinho pode ser descanso, recolhimento, um respiro necessário. Solidão é outra coisa. É a falta de um contato que faria diferença, a sensação de que ninguém alcança você de verdade. Reconhecer qual das duas está presente já muda como você se relaciona com o dia.
O que costuma ficar de fundo
É comum, no consultório, encontrar pessoas que atribuem esse mal-estar a si mesmas. "Devo estar antissocial", "será que sou eu que não sei lidar sozinho". Como se a dificuldade fosse um defeito de caráter, e não uma resposta legítima a um ambiente que mudou de forma.
Mas a necessidade de contato não é fragilidade. É como nos constituímos. Trabalhar isolado por meses seguidos cobra um preço de qualquer pessoa, por mais introvertida ou autossuficiente que seja.
Ampliar a consciência sobre isso já é um começo. Perceber que o cansaço do fim do dia talvez não seja só de trabalho — que tem também uma fome de presença ali dentro. E, a partir disso, olhar para o campo com mais intenção: onde é possível recuperar algum contato real? Uma chamada com vídeo em vez de texto. Um trabalho num café, de vez em quando. Um encontro fora do expediente que não seja sobre metas. Um vínculo cultivado mesmo à distância.
Não são soluções mágicas. São gestos de reaproximação com algo de que a gente precisa mais do que admite.
Se esse silêncio dos seus dias vem pesando de um jeito que você não consegue nomear sozinho, pode ser um bom momento para conversar.
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