O luto de uma demissão que você não escolheu

Um e-mail, uma reunião curta, uma frase que você não esperava ouvir naquele dia. E de repente o lugar que ocupava há meses ou anos deixa de ser seu. A demissão que não parte de você tem essa qualidade abrupta: rompe algo antes que você tenha tido tempo de se preparar.

Muita gente reage tentando ser prática logo de cara. Atualiza o currículo, avisa a rede, calcula quanto tempo o dinheiro dura. Isso faz sentido. Mas por baixo dessa movimentação costuma haver algo que a pressa não resolve — e que merece ser olhado.

Não é só o emprego que se perde

Quando um vínculo de trabalho se encerra de forma inesperada, o que se abala raramente é apenas a fonte de renda. Some junto uma rotina que organizava os dias, um grupo de pessoas com quem se convivia, um lugar onde você era reconhecido por aquilo que fazia.

Na Gestalt-terapia, pensamos a pessoa em relação com seu campo — o conjunto de vínculos, atividades e sentidos que sustentam o cotidiano. O trabalho ocupava uma parte importante desse campo. Quando ele desaparece de repente, não é estranho sentir que o chão inteiro ficou instável, mesmo em áreas que nada têm a ver com o emprego.

Por isso a palavra luto cabe aqui. Não como exagero, mas como nome honesto para o que acontece: há uma perda, e perdas pedem tempo de elaboração.

O baque na imagem de si

Demissão sem escolha costuma tocar num ponto delicado: a sensação de ter sido dispensado. Mesmo quando a razão foi corte de custos, reestruturação, algo impessoal, a mente insiste em transformar o fato em veredito sobre o próprio valor. Se me mandaram embora, é porque eu não era bom o bastante.

Vale reparar como esse pensamento chega rápido e inteiro, sem espaço para nuance. Uma decisão que envolveu orçamento, política interna, momento da empresa — coisas que estavam longe do seu controle — vira, na sua cabeça, uma afirmação sobre quem você é.

Separar essas camadas não apaga a dor. Mas devolve alguma justiça à leitura do que aconteceu. Você viveu uma perda; não necessariamente falhou.

A vontade de já estar do outro lado

É comum querer atravessar essa fase o mais rápido possível. Conseguir logo outra vaga, provar a si mesmo que segue capaz, encerrar o desconforto. A pressa por reorganizar tudo às vezes é uma forma de não sentir o que está ali — o susto, a raiva, o medo, a tristeza.

O problema é que o que não se sente costuma continuar operando por baixo. A pessoa consegue um novo emprego e leva junto o susto não digerido, agora disfarçado de excesso de zelo ou de um medo constante de que aconteça de novo.

Fazer contato com o que se sente — em vez de saltar por cima — não é se afundar no sofrimento. É reconhecer o que está presente para que possa, com o tempo, se transformar. O baque tem seu ritmo, e ele raramente coincide com a pressa do mercado.

Um tempo que não é vazio

O intervalo entre um trabalho e outro parece, de fora, um espaço em branco a ser preenchido depressa. Visto de perto, pode ser um período de reorganização real: rever o que fazia sentido no que ficou para trás, o que você não quer repetir, o que gostaria que fosse diferente na próxima etapa.

Nem sempre esse olhar acontece sozinho, sobretudo quando o susto ainda ocupa o primeiro plano. Um espaço de escuta pode ajudar a distinguir o que é elaboração do luto e o que é reflexão sobre os próximos passos — coisas que se misturam com facilidade nesse momento.

Se você está atravessando algo assim e sente que precisa de um espaço para pensar em voz alta, conversar pode ser um bom começo.

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