O peso de ter que se reinventar o tempo todo

"Voc\u00ea precisa se reinventar." A frase virou quase um mandamento. Est\u00e1 nas palestras, nos posts, nas conversas de corredor, nas mensagens motivacionais que chegam no fim do expediente. E, de tanto ser repetida, deixou de soar como convite para virar cobran\u00e7a. Como se existir do jeito que se \u00e9 hoje j\u00e1 n\u00e3o bastasse \u2014 fosse preciso, sempre, estar virando outra coisa.

Muita gente carrega esse peso em sil\u00eancio. N\u00e3o \u00e9 medo de aprender ou de mudar. \u00c9 o cansa\u00e7o de nunca poder chegar. De sentir que, mal terminou de se adaptar a uma exig\u00eancia, j\u00e1 surgiu outra esperando na esquina.

Reinven\u00e7\u00e3o virou exig\u00eancia permanente

H\u00e1 algo genu\u00edno na ideia de se atualizar, de se abrir ao novo, de deixar cair o que n\u00e3o serve mais. O problema n\u00e3o \u00e9 a mudan\u00e7a. \u00c9 quando ela deixa de ser um movimento poss\u00edvel e vira uma condi\u00e7\u00e3o para continuar valendo alguma coisa.

Num mundo que confunde performance com exist\u00eancia, parar de se reinventar passa a soar como estagnar \u2014 e estagnar, nessa l\u00f3gica, \u00e9 quase deixar de importar. Ent\u00e3o a pessoa aprende uma nova ferramenta, muda o discurso, ajusta o posicionamento, refaz o perfil. E, no fundo, uma pergunta fica batendo: quando \u00e9 que vou poder simplesmente ser o que j\u00e1 sou?

O que fica de fundo quando tudo \u00e9 sobre virar outra pessoa

Na Gestalt-terapia, pensamos em figura e fundo: aquilo que ganha destaque na nossa experi\u00eancia num dado momento, e aquilo que fica no plano de tr\u00e1s. Quando a reinven\u00e7\u00e3o ocupa toda a figura, o que costuma ficar esquecido no fundo \u00e9 justamente o que a pessoa j\u00e1 construiu. A experi\u00eancia acumulada. Os aprendizados que n\u00e3o cabem num curso novo. A pr\u00f3pria maturidade de quem j\u00e1 atravessou muita coisa.

O olhar fica tão voltado para o que ainda falta virar que se perde o contato com o que j\u00e1 se \u00e9. E \u00e9 curioso: reinven\u00e7\u00e3o sem enraizamento cansa muito mais. Porque n\u00e3o parte de nenhum lugar firme. \u00c9 s\u00f3 movimento em cima de movimento, sem ch\u00e3o embaixo.

O ajustamento por tr\u00e1s da corrida

Manter-se sempre em transforma\u00e7\u00e3o pode, para muitas pessoas, ter sido um bom ajustamento em algum momento. Num campo inst\u00e1vel, onde nada parecia garantido, estar sempre pronto para mudar foi uma forma de sobreviver, de n\u00e3o ser pego de surpresa, de se sentir minimamente no controle.

O que vale notar \u00e9 se esse ajustamento ainda serve \u2014 ou se virou uma corrida que n\u00e3o para nunca, movida menos por desejo e mais por medo de ficar para tr\u00e1s. Reinventar-se por curiosidade \u00e9 uma coisa. Reinventar-se para escapar da sensa\u00e7\u00e3o de ser insuficiente \u00e9 outra bem diferente, ainda que por fora pare\u00e7am iguais.

Fazer contato com quem j\u00e1 se \u00e9

N\u00e3o se trata de parar de crescer ou de fechar as portas para o novo. Trata-se de perguntar: essa pr\u00f3xima mudan\u00e7a nasce de um movimento meu, ou de uma exig\u00eancia que eu absorvi sem questionar?

Algumas perguntas podem abrir esse espa\u00e7o:

  • O que eu j\u00e1 sou hoje que n\u00e3o precisa ser reinventado?
  • Quando foi a \u00faltima vez que me permiti estar, sem estar me transformando em outra coisa?
  • Essa vontade de mudar \u00e9 minha, ou \u00e9 o medo de parecer parado?

N\u00e3o s\u00e3o perguntas para responder r\u00e1pido. S\u00e3o convites a diminuir o passo o suficiente para se ouvir. Porque \u00e0s vezes o gesto mais transformador n\u00e3o \u00e9 virar mais uma vers\u00e3o de si \u2014 \u00e9 reconhecer, com algum descanso, a vers\u00e3o que j\u00e1 est\u00e1 aqui.

Se algo aqui ressoou, pode ser um bom ponto de partida para uma conversa.

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