O peso de ser o mais experiente da equipe

Em algum momento, sem que houvesse um anúncio, você virou a pessoa a quem todos recorrem. A dúvida do time chega até você. O erro que ninguém entende para na sua mesa. As decisões esperam seu aval. E o que era um sinal de confiança começou, aos poucos, a pesar de um jeito que você mal sabe nomear.

Ser o mais experiente de uma equipe costuma ser lido como um bom lugar. E, em muitos sentidos, é. Mas há um cansaço específico nessa posição — um cansaço que raramente aparece nas conversas, porque parece ingratidão reclamar de ser valorizado.

O campo se organiza em torno de você

Na Gestalt-terapia, pensamos que a pessoa nunca está isolada: ela existe sempre em relação com um campo. E quando você se torna a referência de um time, o campo inteiro passa a se configurar ao seu redor. As pessoas param de tentar resolver antes de perguntar. O fluxo de trabalho aprende que há um caminho mais curto: você.

Isso não acontece por má intenção de ninguém. É um ajustamento natural do grupo — encontrou uma fonte confiável e se apoiou nela. O problema é que esse ajustamento, tão funcional para o time, deixa você num ponto de sobrecarga contínua. Cada interrupção é pequena. A soma delas ocupa o dia inteiro.

O trabalho que não aparece

Parte do que pesa é justamente o que ninguém vê. Responder à dúvida do colega, revisar o que já deveria estar pronto, sustentar a segurança do grupo — nada disso vira entrega. Não aparece no relatório, não tem prazo, não recebe reconhecimento próprio. E ainda assim consome uma energia enorme.

Há também um custo mais silencioso: o seu próprio trabalho, aquele que exige concentração e continuidade, vive fragmentado. Você começa algo, é interrompido, retoma, é interrompido de novo. No fim do expediente fica a sensação de ter trabalhado o dia todo sem ter avançado no que era seu.

O que a disponibilidade constante tenta proteger

Vale olhar, com cuidado, para o que sustenta esse lugar por dentro. Nem sempre a dificuldade de recuar é só do campo. Às vezes ser o mais requisitado se tornou parte de como você se sente importante — e desacelerar essa demanda mexe com algo mais profundo do que a agenda.

É comum, no consultório, encontrar pessoas para quem estar sempre disponível virou a prova de que pertencem, de que são úteis, de que ninguém questionará seu valor. Recusar uma interrupção, então, não parece só uma questão de tempo. Parece arriscar o lugar que se conquistou.

Outras vezes, o peso é mesmo do ambiente: um time sem processos de aprendizagem, uma liderança que se acomodou em ter alguém que resolve tudo, uma cultura que não distribuiu o conhecimento. Distinguir uma coisa da outra já é um trabalho de consciência importante.

Fazer contato com o próprio limite

Não se trata de deixar de ajudar, nem de guardar o que você sabe. Compartilhar experiência é um gesto generoso e legítimo. Trata-se de perceber quando esse gesto virou um fluxo sem fronteira, que drena sem retorno.

Algumas perguntas ajudam a ampliar a consciência sobre isso. O que acontece dentro de você quando alguém interrompe seu foco? Que preço você paga por dizer sim a tudo? O que aconteceria — de verdade, não na fantasia — se você devolvesse uma dúvida para a pessoa tentar antes de recorrer a você?

O limite, aqui, não é frieza. É a fronteira que permite que você continue presente sem se dissolver no ritmo de todos. É, também, uma forma de o time crescer, porque um grupo que aprende a se sustentar sem depender de uma única pessoa fica mais forte.

Se algo aqui ressoou com o seu momento, pode ser um bom ponto de partida para uma conversa.

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