Quando o silêncio da liderança adoece a equipe
Há uma ideia antiga de que liderar bem é evitar conflito. Que um bom gestor é aquele que não gera ruído, que mantém a equipe calma, que não traz assuntos desconfortáveis à mesa. Na prática, o que costuma acontecer é o contrário: o silêncio não elimina o desconforto, ele apenas o empurra para baixo — onde continua trabalhando, sem que ninguém consiga nomeá-lo.
O que o silêncio comunica
Um ponto que a Gestalt-terapia ajuda a enxergar é que não existe não comunicar. Mesmo quando uma liderança escolhe não dizer nada, algo está sendo dito. O feedback que não vem, a conversa sobre a mudança que foi adiada, a tensão que todos percebem mas ninguém nomeia — tudo isso ocupa espaço no campo da equipe.
O campo, aqui, é o conjunto vivo de relações, expectativas e histórias que existe entre as pessoas de um time. Quando um assunto importante fica de fora dele, não some. Ele vira um fundo difuso: aquela sensação de que tem algo no ar, de que a temperatura mudou, de que é melhor pisar em ovos. As pessoas passam a gastar energia tentando adivinhar o que não foi dito.
O custo de calar para "não desgastar"
É comum, no trabalho com lideranças, encontrar gestores que evitam certas conversas com a melhor das intenções. Não querem magoar, não querem parecer duros, não querem "criar problema". O raciocínio é compreensível. Mas o efeito costuma ser o oposto do pretendido.
Quando uma dificuldade não é nomeada, a equipe preenche o vazio com as próprias interpretações — quase sempre mais ansiosas do que a realidade. A pessoa que não recebe um retorno claro imagina o pior. O time que não sabe o motivo de uma decisão constrói explicações nos corredores. E o gestor, que calou para proteger, acaba sustentando sozinho um peso que poderia ter sido dividido numa conversa.
Calar raramente é neutro. Costuma ser mais custoso do que falar.
Contato não é confronto
A Gestalt-terapia trabalha muito com a ideia de contato: o encontro real entre duas pessoas, com o que cada uma sente e pensa de fato. Contato não é sinônimo de embate. É a possibilidade de dizer o que precisa ser dito de um jeito que sustente a relação, e não que a rompa.
Uma conversa difícil bem conduzida não é aquela em que o gestor "ganha" ou impõe. É aquela em que algo verdadeiro pôde ser colocado entre as pessoas — e onde a outra parte também teve espaço para existir ali. Isso exige uma coisa que quase nunca se ensina em treinamentos de gestão: presença. Estar inteiro na conversa, atento ao que acontece no momento, e não apenas recitando um roteiro pronto.
Nomear o que já está no ar
Muitas vezes, o primeiro passo não é resolver nada — é apenas nomear o que todos já sentem. Reconhecer em voz alta que a mudança gerou insegurança. Dizer que a última semana foi pesada. Perguntar como as pessoas estão, sem pressa de consertar a resposta.
Uma liderança que consegue nomear o desconforto devolve à equipe algo importante: a sensação de que o real pode ser falado ali. E quando o real pode ser falado, ele deixa de operar nas sombras. As pessoas voltam a gastar energia com o trabalho, e não com adivinhação.
Nada disso torna as conversas difíceis fáceis. Elas continuam desconfortáveis, e tudo bem. O desconforto de uma conversa honesta é quase sempre menor do que o desgaste crônico de um silêncio que ninguém teve coragem de romper.
Se você ocupa uma posição de liderança e sente que tem conversas represadas há tempo demais, vale olhar para isso com cuidado — e, se fizer sentido, conversar.
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