Trabalhar com quem não confia em você

Tem uma diferença enorme entre entregar um trabalho e entregar um trabalho sabendo que alguém vai revisar cada linha esperando encontrar um erro. No papel, a tarefa é a mesma. Por dentro, não.

Quando falta confiança entre você e quem lidera seu trabalho, algo muda na forma como você habita o próprio dia. Você começa a antecipar a desconfiança antes mesmo dela aparecer. Explica demais. Documenta tudo. Manda um e-mail confirmando o que já foi combinado verbalmente, só para ter registro. É cansativo — e boa parte desse cansaço nem tem a ver com o volume de tarefas.

Quando o outro vira uma ameaça no campo

Na Gestalt-terapia, olhamos para a pessoa sempre em relação ao seu campo — o ambiente, os vínculos, o momento. E o vínculo com quem lidera é um dos que mais ocupa esse campo no trabalho. Quando esse vínculo é de confiança, ele funciona como um fundo estável: você faz o que precisa fazer sem precisar se defender o tempo todo.

Quando a confiança não está ali — porque o gestor microgerencia, questiona demais, ou porque houve uma quebra que nunca foi reparada —, essa figura muda. A liderança deixa de ser um apoio no fundo e vira uma presença que você monitora o tempo inteiro. Parte da sua atenção, que poderia estar no trabalho, fica voltada para se proteger.

E isso não é fraqueza. É o organismo respondendo ao que percebe. Diante de um ambiente que parece cobrar prova constante, ficar em alerta é uma resposta compreensível. O problema é que viver em alerta contínuo desgasta.

O que a autoproteção acaba custando

Quem trabalha sob desconfiança costuma desenvolver ajustamentos que fazem sentido no curto prazo. Você para de arriscar ideias novas, porque errar diante de quem já duvida de você pesa mais. Passa a pedir aprovação para coisas que antes resolvia sozinho. Segura o que pensa em reuniões.

Cada um desses movimentos protege de um jeito. Mas, somados, eles vão estreitando o seu espaço. Você vira uma versão mais contida, mais defensiva, mais cansada de si mesmo. Às vezes a pessoa chega ao consultório dizendo que "perdeu a vontade" ou que "não é mais tão bom no que faz" — quando, olhando com calma, o que aconteceu foi que ela recolheu quase tudo de si para sobreviver a um ambiente onde não se sentia confiada.

Nem toda desconfiança fala de você

Um ponto que costuma trazer algum alívio: a desconfiança de uma liderança nem sempre é uma avaliação real do seu valor. Muitas vezes ela diz mais sobre o gestor — sobre a insegurança dele, sobre uma cultura de controle, sobre pressões que ele repassa sem perceber — do que sobre a sua competência.

Isso não resolve a situação, mas muda a figura. Uma coisa é pensar "eu não sou confiável". Outra é reconhecer "estou num campo onde a confiança não circula". A segunda leitura devolve a você um pouco de chão.

Fazer contato com o que está acontecendo

Não há uma resposta única aqui. Para algumas pessoas, o caminho passa por nomear o desconforto com a própria liderança, mesmo que dê medo. Para outras, é reconhecer que aquele ambiente específico já não cabe mais.

O que a Gestalt propõe, antes de qualquer decisão, é ampliar a consciência do que você tem vivido. Perceber quanto de você anda ocupado em se defender. O que você deixou de fazer. Como seu corpo reage nos dias em que precisa lidar com essa pessoa. Esse contato não muda o outro, mas muda a sua relação com o que está acontecendo — e é daí que costuma nascer alguma escolha mais sua.

Se algo aqui tocou em algo que você vem sentindo, pode ser um bom ponto de partida para conversar.

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