Quando o trabalho vira toda a sua identidade
Existe uma pergunta que costuma travar mais do que parece: "quem você é, para além do que você faz?". Muita gente, ao tentar responder, percebe que quase tudo o que vem à boca tem a ver com o trabalho — o cargo, os projetos, o que se entrega. E quando isso acontece, vale a pena parar um pouco e olhar.
Quando "o que eu faço" ocupa todo o espaço
Na Gestalt-terapia, falamos de figura e fundo. A cada momento, algo se destaca (a figura) sobre um pano de fundo mais amplo (tudo o mais que somos e vivemos). O problema não é o trabalho ser figura — às vezes ele precisa ser. O problema é quando ele vira a única figura possível, e todo o resto some no fundo: os vínculos, o corpo, o descanso, os interesses que não geram resultado nenhum.
Quando isso se instala, algo curioso acontece. Um dia ruim no trabalho deixa de ser um dia ruim e passa a ser uma ameaça ao próprio valor. Uma crítica a um projeto vira uma crítica a quem você é. Sem outros apoios no campo, tudo pesa no mesmo ponto.
Como a gente chega até aqui
Raramente isso é uma escolha consciente. É comum, no consultório, encontrar pessoas que construíram a vida inteira em torno da ideia de que valer a pena é ser produtivo. Muitas vezes isso começou cedo, como um ajustamento que fez todo sentido: ser reconhecido pelo desempenho pode ter sido, em algum momento, a forma mais segura de ser visto e amado.
Esse ajustamento foi criativo. Ele protegeu, sustentou, abriu portas. Só que um ajustamento que serviu num contexto pode deixar de servir em outro. O que garantia pertencimento aos vinte anos pode, aos quarenta, estar sufocando tudo o que ficou de fora.
Vivemos, além disso, num tempo que confunde performance com existência — como se descansar fosse desperdício e parar fosse falhar. Não é só você: é um campo cultural que empurra nessa direção o tempo todo.
O que se perde no caminho
Quando o trabalho ocupa quase todo o espaço, algumas coisas vão ficando distantes sem que a gente perceba. O contato com o próprio corpo e seus sinais de cansaço. A capacidade de estar com alguém sem checar o celular. O prazer de fazer algo que não precisa dar em nada.
Há também um medo real por trás disso: se eu não sou o meu trabalho, o que sobra? Essa pergunta pode assustar, e por isso muita gente prefere não chegar perto dela. Mas evitar a pergunta não a faz sumir — ela costuma voltar em forma de vazio nos fins de semana, de irritação sem motivo, de uma sensação de estar sempre correndo sem saber para onde.
Ampliar o campo, sem abandonar o que importa
Não se trata de largar o trabalho ou de fingir que ele não importa. O trabalho pode ser fonte de sentido, de identidade, de orgulho — é legítimo que seja. Trata-se de ampliar a consciência sobre o quanto ele ocupa, e do que mais existe em você esperando espaço.
Algumas perguntas podem ajudar a olhar, sem pressa e sem resposta certa:
- O que me dá prazer sem estar ligado a nenhum resultado?
- Quando foi a última vez que me senti eu mesmo longe de qualquer entrega?
- Se eu perdesse esse cargo amanhã, o que ainda seria verdade sobre mim?
Não há pressa em responder. Essas perguntas são mais um convite a olhar do que uma tarefa a cumprir. Recuperar as outras figuras que ficaram no fundo — os afetos, o corpo, o ócio, o que não serve para nada — é um processo, e ele acontece no contato, aos poucos.
Se algo aqui ressoou com o que você tem vivido, pode ser um bom ponto de partida para uma conversa.
Quer conversar sobre saúde mental no trabalho ou iniciar uma psicoterapia?
Agendar uma conversa →